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Blog EntryApr 8, '06 2:04 PM
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Revista Veja, 12 de abril de 2006

Antiguidade não é prova

Manuscrito de 1.700 anos é genuíno,
mas isso não muda a história de Cristo


 

Você vai superar todos os outros apóstolos. Pois você irá sacrificar o homem
que eu encarno.

Jesus, dirigindo-se a Judas

Tudo o que se sabe sobre a vida de Jesus Cristo é contado nos quatro Evangelhos canônicos — Marcos, Lucas, Mateus e João. Nos últimos meses, uma versão romanceada, descrita no livro e, agora, também no filme O Código Da Vinci, tornou-se popular, ainda que não tenha nem o respaldo da ciência nem o da Igreja. Na semana passada, a vida de Cristo foi novamente recontada — desta vez em um documento escrito há 1.700 anos. O texto em papiro, intitulado Evangelho de Judas, foi descoberto na década de 70. Mas os cientistas e historiadores só recentemente comprovaram sua autenticidade. A tradução foi feita por um grupo de pesquisadores de vários países com o apoio da National Geographic Society. O fascinante no documento é uma nova versão para o papel de Judas Iscariotes na Paixão de Cristo. Em lugar de trair o filho de Deus em troca de 30 moedas de prata, Judas age por ordem de Jesus, precipitando, dessa forma, a morte na cruz e a salvação da humanidade. Cumprida essa missão, Judas não se enforca, como diz a tradição cristã. Em vez disso, retira-se para meditar no deserto.

A existência do Evangelho de Judas já era conhecida, mas todas as cópias estavam perdidas. O documento é citado pelo bispo Irineu de Lyon em sua obra Contra a Heresia, escrita no ano 180. Nela, o religioso qualifica o texto de fantasioso e recomenda que não seja lido pelos cristãos. O manuscrito é mais um entre uma série de textos apócrifos (não reconhecidos pela Igreja) que foram divulgados nas últimas décadas. Entre eles estão o Evangelho de Maria, sobre Maria Madalena, e o Evangelho de Pedro, um dos apóstolos de Jesus. Os documentos foram escritos entre os séculos I e III, um período em que a versão canônica da vida de Jesus ainda não estava consolidada. Seus autores, na maioria, pertenciam ao gnosticismo, movimento religioso que rivalizou com a Igreja Católica nos primeiros séculos depois de Cristo. Os gnósticos acreditavam em um sistema dualista, com duas divindades, o bem e o mal, e numa doutrina de salvação pela gnose, ou seja, o conhecimento esotérico.

Os textos gnósticos foram condenados pela Igreja Católica e a maioria deles acabou destruída. Uma pequena parte — estima-se que ao todo sejam pouco mais de 100 —, escondida pelos gnósticos, foi descoberta em escavações recentes. Entre aqueles em melhor estado de conservação estão os encontrados numa caverna da cidade egípcia de Nag Hammadi, em 1945. Só nos últimos anos acabaram de ser traduzidos. Muitas vezes, a divulgação de determinado documento demora décadas para ocorrer porque antes é necessário comprovar sua autenticidade. Para isso, uma equipe de especialistas analisa o material utilizado — se é papiro ou pergaminho, por exemplo —, a linguagem e a data aproximada do documento. Utilizam-se testes especiais, como o do carbono 14, e por fim é feita a avaliação do conteúdo (se existe lógica nos nomes citados, geografia, cultura e economia da época). O Evangelho de Judas não deve ser visto como a versão verdadeira do destino do apóstolo de má fama. E, sim, como uma peça no quebra-cabeça dos primeiros anos do cristianismo.



protetorsolar wrote on Apr 9, '06
Leiam a tradução em inglês do EVANGELHO DE JUDAS aqui:
http://archaeologynews.multiply.com/journal/item/401
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